Capítulo II

O Menino e o Banjo

Entre os irmãos da mãe havia dois músicos. O tio Firmo — carpinteiro, roceiro, autodidata. E o irmão mais novo dele, Firmilino Lobato Teixeira, também autodidata. Um nome raro, o próprio Adamor admitia. Mas era esse mesmo: Firmilino Lobato Teixeira.

Foi com o tio Firmilino que começou tudo. O tio Firmo tocava clarinete de um jeito estranho — com a palheta para cima, ao contrário de todo mundo. Para o menino com seis ou sete anos, aquilo era hipnotizante. Pediu para aprender. No entanto, foram as cordas que ganharam seu coração ao assistir tio Firmilino tocar banjo e viola confeccionada artesanalmente.

"Com o meu tio Firmilino tive as primeiras noções de afinação de bandolim e cavaquinho. Ele me ensinou a posição de Sol maior e a posição de Ré com sétima. Só isso. Depois disse: o resto tu te viras."

O instrumento do tio era um banjo artesanal — feito de cedro cavado, com aro de fuselagem de avião que caíra na região na década de 1940. Quatro trastes pregados aleatoriamente. Eram cordas que não afinavam, devido à posição irregular dos trastes no braço do instrumento. Era quase impossível solar. Mas Adamor ficou — escondido no estaleiro, tentando, errando, descobrindo e redescobrindo notas. Talvez daí venha a singularidade de seus choros.

E ali descobriu algo que nunca mais esqueceu: sabia quando alguém tocava errado. Não conseguia fazer a coisa certa, mas ouvia a coisa errada com clareza absoluta. Era o ouvido afinando antes dos dedos — e esse ouvido seria, para o resto da vida, o instrumento mais preciso que teria.

O pai via aquilo com desconfiança. Na mentalidade da época, músico era vagabundo. Queria que o filho fosse comerciante. A mãe queria que fosse padre. Certo dia, o menino Adamor, entretido com o banjo, acabou por esquecer suas tarefas de casa, que eram, dentre outras, partir lenha, encher água para o camburão, abastecer com querosene lamparinas e faróis. Esqueceu de executar algumas dessas tarefas e foi advertido energicamente por seu pai. Adamor ficava triste por não ser compreendida a sua necessidade de aprender a tocar. Aquela paixão era mais forte que ele. Então, dirigiu-se ao trapiche, sentou na escada, contemplando aquela beleza, e chorou, chorou e jurou para si mesmo: "Se eu não morrer, serei o maior tocador de Anajás."

Tinha sete anos. E nunca quebrou a promessa.

Ainda no Guajará, antes de qualquer partida, o pai trouxera uma vitrola portátil com discos de 78 rotações: Emilinha Borba, Marlene, Carmen Miranda, Pixinguinha. Para um menino criado onde a vida terminava cedo à luz de lamparina, onde nunca se ouvira rádio, aquilo foi uma revelação — o mundo inteiro cabendo numa agulha sobre um disco.

Nos discos aparecia o nome "Garoto". Como ainda era menino, Adamor pensava que fosse um garoto igual a ele. Dizia para si mesmo: se esse garoto toca, eu também vou tocar. O pai escondia as agulhas da vitrola para que o filho não gastasse. Adamor pegava as usadas e tentava afiá-las numa pedra de amolar faca, para tirar mais uma escuta delas.

Do Igarapé do Limão para o Mundo Cap. II
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