Capítulo I

A Ilha que Canta

"Eu nasci chorando. E nunca parei."

O Marajó não é apenas uma ilha. É um mundo à parte — maior do que muitos países europeus, banhado pelo Oceano Atlântico, pelos rios Amazonas e Tocantins e pelas baías do Marajó, habitado por búfalos que passeiam livres e por pessoas que aprenderam a viver no ritmo das marés. Quem nasce no Marajó nasce com o rio dentro.

O município de Anajás está localizado no centro geográfico do Marajó. Em 29 de maio de 1942, dentro do Igarapé do Limão do Guajará, nasceu o segundo filho de Osvaldino Ribeiro e Celina Lobato Ribeiro. Puseram-lhe o nome de Adamor. A casa era de açaizeiro, coberta de folhas de ubussu, em uma área de várzea que durante as águas grandes o solo era invadido — o tipo de construção que a floresta oferecia e que o rio podia levar.

Ficou ali talvez um ou dois anos. Quando começou a se entender por gente, a família já estava na margem do Rio Guajará, onde o pai construiria, por volta de 1947, a casa que chamou de Sempre-Viva — toda de madeira de lei, assoalhada. A sempre-viva é uma flor silvestre também existente nas matas do Marajó: ela consegue resistir consideravelmente ao tempo sem estragar ou perder sua cor — daí a origem do nome sempre viva, porque mesmo quando é arrancada ainda fica viva por muito tempo. Anos depois Adamor comporia uma valsa com esse nome, porque a falta dos pais é exatamente isso — permanece.

O avô materno, Augusto Mendes Teixeira, era carpinteiro e músico. Tocava por partitura. Um irmão dele foi até São Sebastião da Boa Vista no final dos anos 1920, estudou música e voltou para ensinar os irmãos. O avô aprendeu assim. E essa veia desceu pela família, silenciosa como água de rio, até chegar em Adamor.

"Eu creio que minha veia musical veio da vertente do lado da minha mãe."

A família tinha sete filhos: Abenor, morto bebê de febre; Adamor; Ataniudis, falecido em 2008; Adenor, morto ainda criança; Tanildes, nascida em 1949; Adagenor; e Maria Adjanira, também já falecida. O pai trabalhava no comércio e na mata, indo a cada quinze dias prestar contas ao tio-avô Cândido Manoel Ribeiro. A vida era dura e simples, como costuma ser a vida de quem mora onde o mapa só mostra água.

Do Igarapé do Limão para o Mundo Cap. I
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