Capítulo IX
Em 1986, depois do reencontro com Amilcar Brenha em Macapá, Adamor tomou a decisão: ia gravar um disco. Procurou os principais estúdios de Belém — RJ, Raulam e Gravodisco. Os orçamentos eram para 150 horas de gravação e saíam por um dinheirão. Continuou insistindo. Encontrou o Estúdio C, no Edifício Palácio do Rádio, na Avenida Presidente Vargas. Era um pequeno estúdio de publicidade. O técnico disse que não tinha condições — espaço pequeno, vazamento de som. Adamor perguntou: quantos canais? Quatro. Então dá. O técnico resistia. Adamor insistiu: fale com o proprietário. Um dos proprietários era Edgar Augusto Proença, sócio do irmão. Edgar foi pessoalmente e chegaram a um acordo: Adamor poderia gravar apenas às terças-feiras, das oito da noite à meia-noite. O custo caiu drasticamente — muito mais barato do que os grandes estúdios. Aceitou. A gravação durou de 1989 a 1993 — quatro anos que ele define sem eufemismo como sofrimento.
A formação era simples: Adamor no bandolim, Gilson no cavaquinho, Josimar nos violões de seis e sete cordas, e Meninéia na percussão. Participações especiais: Yuri Guedelha na flauta, e Nazinha na voz, no chorinho Chorando na Mania. Quando as gravações terminaram, começou o calvário da prensagem. Adamor não tinha o dinheiro todo. Pediu aos amigos do Marajó, fez shows para arrecadar — o primeiro foi no Kalamázoo — a primeira Noite do Chorinho, em 1992. Eduardo Dias — cantor, compositor e grande admirador do trabalho de Adamor — tinha o Selo Brilho e o emprestou para viabilizar a prensagem do disco.
O momento mais dramático foi o do cheque. A gravadora deu 24 horas para depositar 50% da prensagem. Adamor conseguiu o cheque com o amigo Gilson — que almoçou com ele antes, sem saber como o amigo pagaria. Saiu correndo para o banco, já em cima da hora, e entrou no banco errado. O outro já estava fechando.
"Bati com muita insistência. O guarda só dizia que não dava mais. Só não morri porque acho que eu tinha que cumprir minha missão ainda. Botei o pé na porta e não deixei fechar. Disse: é uma questão de vida ou morte. O gerente viu, pegou o cheque e depositou. Parece que eu estava no alto e caí assim."
Por coincidência, Adamor estava em Belém quando Eduardo ligou: "Compadre, o disco chegou. Eu vinha aqui escutar o seu disco." Adamor foi. Quando viu Eduardo colocar o disco no toca-disco e seu nome começar a girar ali — depois de tudo que havia passado, de todos os anos de luta, das terças-feiras, das viagens, do dinheiro juntado de amigo em amigo — desabou. Chorou.
"Não é fácil. Chorei muito, mas chorei de alegria."
Nos dias que antecederam o lançamento, Adamor alugou táxis, saiu com os filhos e amigos pregando cartazes pela cidade. No dia 17 de maio de 1993 aconteceu o lançamento do tão sonhado LP Chora Marajó. O disco mostrava algo que nenhum produtor podia fabricar: um estilo. Uma voz amazônica irrepetível.