Capítulo VII
Em 1970 foi comemorado o centenário do Choro. Naquele ano, uma grande febre tomou o país para que fossem criados clubes de Choro nos estados. Todo lugar tinha o seu — menos Belém. Graças ao empenho de Aldemir Ferreira da Silva, que tinha muito amor pelo Choro, a cidade conseguiu finalmente sua casa — não um clube, mas a Casa do Choro de Belém.
Em 6 de setembro de 1979 aconteceu a inauguração da Casa do Choro de Belém, criada por Aldemir Ferreira da Silva — grande chorão e boêmio. Era um prédio de dois andares no bairro do Jurunas, próxima ao Rancho Não Posso Me Amofiná — grande escola carnavalesca de Belém do Pará. No térreo: uma galeria de fotos e obras de artistas, bar e cozinha. No quintal, as rodas de choro — todas acústicas, sem amplificação. No andar de cima, quatro suítes construídas por Aldemir para hospedar artistas de fora. Para estar presente, Adamor fez o sacrifício: como residia no interior, viajou especialmente para Belém e voltou de barco para Anajás. Naquela noite havia um show no Teatro da Paz com o grupo Época de Ouro: no bandolim, João Nascimento; no cavaquinho, Jonas Silva; no pandeiro, Jorginho; no violão de sete cordas, Rafael Rabelo; no violão de seis cordas, César Farias, pai do Paulinho. Após o show, Aldemir levou o grupo para inaugurar a Casa do Choro. Quando o pessoal chegou ao quintal, Rafael Rabelo tirou a capa do violão e foi logo sentando e tocando. Era um fenômeno. Tocaram juntos a noite inteira — Época de Ouro e os chorões de Belém. Lá Adamor também conheceu Nelson Cavaquinho e Paulinho da Viola. Foi uma noite deslumbrante, ombro a ombro com músicos que jamais imaginou que um dia estaria ao lado.
"Aquilo foi uma felicidade enorme para mim. Mesmo chegando cansado depois de três dias de viagem de volta, todo o sacrifício valeu a pena."
Na realidade, Adamor já participava do grupo Gente de Choro mesmo antes de se mudar definitivamente para Belém — sempre que podia, já estava tocando com o grupo, mesmo ainda itinerante. O nome Gente de Choro surgiu naturalmente: antes de existir a Casa do Choro, Gercino, Gilson e os outros saíam tocando pelos bares sem nome, alugavam táxi, iam de bar em bar, fechavam conta um pelo outro. Quando chegou a hora de batizar o grupo, a escolha foi óbvia: eram gente que só tocava chorinho. O grupo tinha dois solistas de bandolim: Adamor e Gercino Pacheco. Como Adamor residia no interior, era o segundo solista — Gercino, além de maior habilidade, estava mais presente em Belém. Mas Adamor solava e nas horas vagas revezava com Gilson Rodrigues no centro do cavaquinho. No início dos anos 1980 conheceu os chorões emergentes e promissores: Yuri Guedelha (flauta), Benjamin (clarinete), Josimar Monteiro (violão), Gerson Veloso (bandolim) e Fifi (bandolim).
Em 1983, Aldemir morreu. Tinha apenas quatro anos de Casa do Choro — de 1979 a 1983. A viúva não deu continuidade e fechou as portas. Os chorões ficaram sem teto e passaram a se encontrar aos sábados pela manhã na calçada em frente à casa de Gilson. O pai dele tinha um pequeno açougue; Gilson trabalhava ali, separava tira-gostos, mandava buscar bebida — e o choro acontecia no sol, na calçada. O público foi crescendo: professores, estudantes, escritores. A calçada não comportava mais. Gilson abriu uma pequena sala de sua casa. O espaço ficou pequeno logo. Expandiu para o terreno lateral, construiu cobertura. No dia 28 de outubro de 1987 foi inaugurada a Casa do Gilson — hoje o QG do choro do Pará, o templo, desde 1987 em atividade contínua. Mas Adamor não parou. Integrou os grupos Novo Som e Só Nascente (choro e samba), Manga Verde e Oficina (samba de muita qualidade — Adamor tem sambas de autoria própria nos discos desses dois grupos) e o folclórico Folclore Curubudo Veropezo (grupo de boi, muito bacana), sem jamais largar a identidade de chorão. Adamor tem composição no disco do Manga Verde. Aldemir, é bom lembrar, era funcionário do Banco da Amazônia e não poderia ter razão social, mas mesmo assim criou a Casa do Choro com todos os detalhes formais e assinava a carteira de trabalho dos músicos mais carentes. Um homem que vivia para o choro. O choro não era gênero para ele — era estado de espírito. Havia choro triste e choro alegre, choro sério e choro brincalhão, e tudo dependia do que o músico sentia naquele momento.