Capítulo V
Ainda nos anos 1950, em Macapá, um circo itinerante chamado Circo Íbis chegou à cidade. Num dos seus números havia um músico maranhense chamado Amilcar Brenha, que tocava bandolim e cavaquinho de uma maneira que Adamor nunca tinha visto — as outras pessoas que ele via tocar o faziam de forma truncada, de um jeito que não estava certo. Amilcar era diferente. Como não tinha dinheiro para pagar o ingresso, Adamor recolhia restos de frutas que ganhava na feira e os levava para os funcionários, para alimentar os animais — pois nessa época o circo tinha animais. Essa era a sua moeda de entrada. Ficava horas observando Amilcar Brenha tocar e ficava sempre muito encantado. Não teve aula formal com ele — apenas observava. Mas o considerou, para sempre, seu mestre.
Depois Amilcar Brenha foi contratado pela Rádio Difusora do Amapá, e Adamor passou a frequentar a rádio para vê-lo. Foi ali também que conheceu Gercino Pacheco. A música ia se fazendo assim — por aproximação, por observação, por presença.
Em 1986, uma década depois, Adamor foi a Macapá para o lançamento do disco O Choro Mágico de Amilcar Brenha. Lá reencontrou Amilcar, já debilitado por um AVC — com o lado esquerdo paralisado. Adamor apenas assistiu. E teve a oportunidade de dizer ao mestre, olho no olho, o quanto havia sido importante para a sua formação.
"Aquilo me fez pensar: preciso gravar meu disco enquanto estou vivo."
Amilcar Brenha se emocionou muito. Adamor saiu dali com a certeza de que não admitia mais demora para deixar registradas em disco suas composições. Tinha mais de vinte composições guardadas no radinho, e saiu decidido: precisava deixar esse legado registrado para o mundo.
Dentro das composições do LP Chora Marajó, Adamor dedicou um choro a Amilcar Brenha, intitulado A Magia de Amilcar.