Capítulo XV
Aos 80 anos, com 70% da visão comprometida por complicações de uma cirurgia de glaucoma, Adamor seguia compondo, ensaiando, se deslocando de combi para os ensaios. "A luz está voltando", disse ele, depois de superar o pior momento.
O projeto futuro é claro: escrever todas as músicas em partitura para instrumentos em Dó, Sib e Mib — para que qualquer músico, em qualquer instrumento, possa tocar o choro do Marajó. Criar um site de acesso aberto. Gravar as 25 músicas inéditas que ainda aguardam ensaio.
"Esses vídeos são de suma importância para mim porque, quando eu partir, vou deixar isso de legado para meus filhos, netos, bisnetos e todos que vierem depois de mim."
Adamor tem sete filhos, doze netos e três bisnetos — Javi, Gretas e Zulínio. Para ele, deixar esse legado musical é fundamental. Uma herança que não tem preço: de reconhecimento, de identidade, de história viva. Que seus netos e as próximas gerações que vierem possam saber quem foi esse homem que nasceu chorando no Igarapé do Limão do Guajará e nunca parou.
Quando tinha oito anos, Adamor queria ser tocador. Oitenta anos depois, o menino ainda está lá — dentro do mestre homenageado pela Câmara Municipal, dentro do compositor de mais de cem obras, dentro do artista que tocou em oito estados do Brasil.
Do Igarapé do Limão para o mundo. De Anajás para Brasília. Do banjo de fuselagem de avião para os palcos do SESC. Do menino que sabia quando o outro tocava errado para o mestre que a cidade inteira homenageia.
É uma vida. É uma música. É um rio.